Por Ivan da Bahia
Compositor, cantor, escritor e ativista cultural radicado na cidade de São Paulo
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| Ivan da Bahia é um ativista cultural e colaborador do Blog |
Todo fim de tarde, quando o Astro Rei começa a descer pra dormir na Baía de Todos-os-Santos, o Cristo da Barra ajeita a postura e manda o recado:
_"Ô meu irmão do Corcovado, repara só o que Deus pintou pra mim hoje. O céu tá azul estrelado mesmo antes da noite chegar. O Farol da Barra já acendeu, piscando pra te dar boa-noite. E o mar... ah, o mar tá deitado manso, só esperando o sol se despedir."_
Aí, quando fevereiro chega e o chão da Barra treme, ele se ajeita todo pro espetáculo. Os trios elétricos vêm descendo pela Oceânica feito cortejo de anjo barulhento. É Ivete, é Bell, é Daniela, é o Olodum troando. A massa vem no arrastão, no suor e na cerveja, tudo passando aos pés dele.
E o Cristo da Barra, vaidoso que só ele, abre mais os braços e fala pro Cristo do Rio:
_"Viu só, meu cumpadi? Aí no Rio tu tem o réveillon e o desfile. Mas aqui... aqui eu tenho o Carnaval mais lindo do mundo passando no meu colo. Tenho o pôr do sol que faz até ateu rezar. Tenho o Farol me fazendo companhia e o céu que de dia é azul e de noite é renda de estrela."_
Aí ele dá aquela pausa, olha pra imensidão, vê a cidade em festa, o mar em brasa, o céu virando noite... e suspira, meio sem graça, meio orgulhoso:
_"O que é que eu vou fazer... se Deus me deu o pedaço mais bonito do Brasil pra tomar conta?"_
E dizem que o Cristo do Rio, lá do alto do Corcovado, só responde baixinho com o vento que vem do mar: _"Te entendo, meu irmão. Te entendo..."_
Porque tem coisa que nem Cristo explica. Só sente.

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