quinta-feira, 18 de junho de 2026

Crônica da Resistência - Samba da Quarta

Por Ivan Da Bahia

Cronista, Escritor e colaborador do Blog

Lauro de Freitas localiza-se na Região Metropolitana de Salvador

Todas as quarta-feira é o dia do samba da quarta em Lauro de Freitas, sob a direção da nossa querida Mãe Carina de Ogum e a Família Miranda. São 5 anos de resistência.

Cinco anos de portão aberto mesmo quando a conta chega antes do pagamento.  Cinco anos de fogão aceso, caldo quente e cachaça abençoada. Cinco anos ensinando que samba não é só festa: é trincheira, é reza, é escola.

Quarta-feira a cidade sabe: tem tambor batendo em Lauro. Tem pandeiro cortando o vento e trazendo cheiro de maresia. Tem velho contando história, tem menino aprendendo palma, tem baiana arrumando a saia pra girar.  

Aqui ninguém cai no samba à toa. Cai porque é chamado. E quem chama é Ogum, na frente, abrindo caminho com a espada de luz. É ele quem segura o teto quando o céu desaba. É ele quem endireita a coluna de quem já pensou em desistir.

A Família Miranda segura essa barra com fé de caboclo. Já teve quarta de chuva, de bolso vazio, de língua ferina dizendo “fecha que não dá”. Mas deu. Porque Larí Lará não é palavra bonita: é grito de guerra. É código de quem não se entrega.

Por isso hoje a rua é nossa. Hoje o surdo fala mais alto que o problema. Hoje a palma vence o cansaço. Então ajeita o chapéu, bate o pé no chão três vezes e chama os seus:  Vamos sambar, Larí Lará, que Mãe Carina está na área!  

Ogunhê!

E quando o primeiro couro estalar, lembra: Essa roda tem cinco anos de calo na mão. Tem axé de mãe, tem lei de Ogum, tem sangue Miranda. Não é só samba. É herança.

Salve Lauro de Freitas. Salve o Samba da Quarta. Salve quem resiste. 

Patakori Ogum!

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